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MensagemEnviado: 25 Nov 2016 13:56 
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INTRODUÇÃO

Meu destino não era ser guerreiro. Uma doença de infância deixou-me aleijado para o resto da vida e há 45 anos sou manco. Em 1952, quando me apresentei para o exame médico do serviço militar obrigatório, o médico que examinava as pernas — como não podia deixar de ser, ele foi o último a me examinar naquela manhã — sacudiu a cabeça, escreveu algo no meu formulário e disse que eu estava liberado. Algumas semanas depois, recebi uma carta oficial informando-me de que fora classificado como permanentemente incapaz para o serviço em qualquer das forças armadas.

O destino, no entanto, jogou minha vida no meio de guerreiros. Meu pai fora soldado na Primeira Guerra Mundial. Cresci durante a Segunda, numa região da Inglaterra onde estavam estacionados os exércitos britânicos e americanos que se preparavam para a invasão do Dia D. De alguma forma, detectei que o serviço de meu pai na Frente Ocidental em 1917-18 fora a experiência mais importante de sua vida. O espetáculo da preparação para a invasão em 1943-44 também me marcou, despertando um interesse por assuntos militares que fincou raízes, de tal forma que quando fui para Oxford, em 1953, escolhi a história militar como minha matéria central.

Um tópico principal era a exigência para o diploma, não mais do que isso, e assim meu envolvimento com a história militar poderia ter acabado com a graduação. Porém esse interesse tinha penetrado fundo durante meus anos de faculdade, porque a maioria dos amigos que fiz em Oxford, ao contrário de mim, tinha feito o serviço militar. Eles fizeram-me sentir que perdera alguma coisa. A maioria tinha sido oficial e muitos tinham participado de campanhas, pois a Inglaterra, no início da década de 1950, estava se liberando do Império numa série de pequenas guerras coloniais. Alguns de meus amigos tinham servido nas selvas da Malásia ou nas florestas do Quênia. Uns poucos, que faziam parte de regimentos enviados à Coréia, tinham até participado de batalhas verdadeiras.

Vidas profissionais moderadas esperavam-nos e eles buscavam o sucesso acadêmico e a boa opinião dos professores como passaporte para o futuro. Contudo, estava claro para mim que os dois anos que tinham passado de uniforme lançaram sobre eles o encantamento de um mundo completamente diferente daquele em que estavam decididos a entrar. O encanto era, em parte, o da experiência — de lugares estranhos, da responsabilidade desconhecida, da excitação e até do perigo. Era também o encantamento da familiaridade com os oficiais profissionais que os comandaram. Nossos professores eram admirados por seus conhecimentos e excentricidades. Meus contemporâneos continuavam a admirar os oficiais que tinham conhecido por um outro conjunto de qualidades — vigor, ímpeto, vitalidade e impaciência com o cotidiano. Seus nomes eram freqüentemente mencionados, relembravam-se índoles e maneirismos, recriavam-se suas façanhas — sobretudo suas escaramuças com as autoridades. De alguma forma, acabei sentindo que conhecia esses guerreiros despreocupados e, com certeza, queria muito conhecer gente como eles, nem que fosse para dar materialidade à visão do mundo dos guerreiros que estava tomando forma lentamente em minha mente, enquanto eu trabalhava sobre meus textos de história militar.

Quando a vida universitária acabou e meus amigos partiram para se tornarem advogados, diplomatas, funcionários públicos ou professores universitários, descobri que o reflexo de seus anos nas forças armadas tinha derramado seu encantamento sobre mim. Decidi que iria ser um historiador militar, uma decisão temerária, pois havia poucas vagas acadêmicas para essa disciplina. Porém, mais depressa do que eu tinha direito a esperar, abriu uma vaga na Real Academia Militar de Sandhurst, a escola de cadetes da Inglaterra, e entrei para o corpo docente em 1960. Tinha 25 anos e não sabia nada sobre o exército. Jamais ouvira um tiro disparado com raiva, raramente encontrara um oficial da ativa e a imagem que tinha dos soldados e de suas atividades pertencia inteiramente a minha imaginação.

O primeiro período letivo que passei em Sandhurst jogou-me de cabeça em um mundo para o qual nem mesmo a imaginação me preparara. Em 1960, o pessoal militar da Academia — eu pertencia ao lado acadêmico — era composto, no nível mais graduado, exclusivamente de homens que tinham lutado na Segunda Guerra Mundial. Os oficiais mais jovens eram quase todos veteranos da Coréia, da Malásia, do Quênia, da Palestina, de Chipre ou de qualquer outra de uma dezena de campanhas coloniais. Seus uniformes estavam cobertos de fitas de medalhas, recebidas muitas vezes por bravura. Meu chefe de departamento, um oficial reformado, usava nos jantares a Ordem de Distinção em Serviço e a Cruz Militar com duas barras, e suas distinções não eram exceção. Havia majores e coronéis com medalhas por bravura conquistadas em Alamein, Cassino, Arnhem e Kohima. A história da Segunda Guerra Mundial estava escrita naquelas pequenas fitas de seda que eles usavam tão despreocupadamente e seus melhores momentos estavam registrados com cruzes e medalhas que os portadores pareciam pouco conscientes de ter ganhado.

Não era apenas o caleidoscópio de medalhas que me encantava. Era também o de uniformes e tudo o que eles significavam. Muitos de meus contemporâneos de universidade traziam com eles pedaços de glória militar — casacos ou sobretudos dos uniformes. Aqueles que tinham sido oficiais de cavalaria continuavam a usar com os trajes de passeio as botas de verniz com canhão de marroquim pertencentes a seus uniformes de lanceiros ou hussardos. Aquilo me alertara para o paradoxo de que os uniformes não eram uniformes, que os regimentos se vestiam de maneira diferente. Quão diferente, Sandhurst ensinou-me no primeiro jantar festivo a que compareci. Havia lanceiros e hussardos de azul e escarlate, mas também cavaleiros da Família Real esmagados pelo peso de seus galões de ouro, fuzileiros de verde tão escuro que parecia preto, artilheiros de calças justas, soldados do corpo de guarda com camisas engomadas, Highlanders com seis padrões diferentes de tartã, Lowlanders com calças justas de tecido axadrezado escocês e infantes de regimentos de condados com jaquetas de barra amarela, branca, cinza, vermelha, ou de couro de búfalo.

Eu achava que o exército era uma coisa só. Naquela noite dei-me conta de que não era. Eu ainda tinha de aprender que as diferenças externas falavam de diferenças internas muito mais importantes. Os regimentos, descobri, definiam-se sobretudo por sua individualidade, e era essa individualidade que fazia deles as organizações de luta cuja eficácia em combate era proclamada pelas medalhas e cruzes que eu via a minha volta. Meus amigos militares — a pronta amizade oferecida pelos guerreiros é uma de suas qualidades mais cativantes — eram irmãos de armas; mas eram irmãos somente até certo ponto. A fidelidade ao regimento era a pedra de toque de suas vidas. Uma diferença pessoal poderia ser perdoada no dia seguinte. Uma calúnia ao regimento jamais seria esquecida e, na verdade, jamais seria pronunciada, tão profundamente ela afetaria os valores da tribo.

Tribalismo — eis o que eu tinha encontrado. Os veteranos que conheci em Sandhurst na década de 1960, por muitos critérios externos, não eram diferentes dos profissionais de outras profissões. Vinham das mesmas escolas, às vezes das mesmas universidades, eram devotados a suas famílias, tinham as mesmas esperanças para seus filhos, preocupavam-se com dinheiro da mesma forma. O dinheiro, porém, não era um valor último ou definidor, assim como não o era a promoção dentro do sistema militar. Os oficiais, evidentemente, almejavam subir na carreira, mas não era esse o valor pelo qual se mediam. Um general podia ser admirado, ou não. A admiração derivava de algo diferente de suas insígnias de hierarquia superior. Vinha antes da reputação que detinha como homem entre outros homens, construída ao longo de muitos anos sob os olhos de sua tribo regimental. Essa tribo não era composta apenas de colegas oficiais, mas também de sargentos e soldados comuns. “Não é bom com soldados” era uma condenação definitiva. Um oficial podia ser inteligente, competente, trabalhador. Se seus soldados tivessem dúvidas sobre ele, nenhuma dessas qualidades compensaria. Ele não pertencia à tribo.

O exército britânico é tribal ao extremo; alguns de seus regimentos têm histórias que remontam ao século XVII, quando os exércitos modernos estavam apenas começando a tomar forma a partir das hostes feudais de guerreiros cujos antepassados tinham entrado na Europa ocidental durante as invasões que derrubaram o Império romano. No entanto, desde que entrei para Sandhurst encontrei os mesmos valores guerreiros da tribo em muitos outros exércitos. Percebi a aura tribal dos oficiais franceses que participaram da guerra na Argélia, comandando soldados muçulmanos cujas tradições eram as mesmas dos ghazi, os saqueadores de fronteira do Islã. Senti a mesma coisa nas lembranças de oficiais alemães, reconvocados para montar o exército da Alemanha no pós-guerra, que tinham lutado contra os russos nas estepes e preservado um orgulho nas provações por que tinham passado que relembrava as guerras de seus ancestrais medievais. Percebi a mesma coisa, de maneira forte, entre os oficiais indianos, sobretudo na rapidez com que insistem em que são Rajputs ou Dogras, descendentes dos invasores que conquistaram a Índia antes que sua história começasse a ser escrita. Encontrei-a entre os oficiais americanos que serviram no Vietnã, no Líbano ou no Golfo, expoentes de um código de coragem e dever que pertence às origens da república deles.

Os soldados não são como os outros homens — eis a lição que aprendi de uma vida entre guerreiros. Essa lição fez-me considerar altamente suspeitas todas as teorias e representações da guerra que a colocam no mesmo pé de outras atividades humanas. A guerra está indiscutivelmente ligada à economia, à diplomacia e à política, como demonstram os teóricos. Mas a ligação não significa identidade ou mesmo semelhança. A guerra é completamente diferente da diplomacia ou da política porque precisa ser travada por homens cujos valores e habilidades não são os dos políticos e diplomatas. São valores de um mundo à parte, um mundo muito antigo, que existe paralelamente ao mundo do cotidiano mas não pertence a ele. Ambos os mundos se alteram ao longo do tempo, e o do guerreiro acerta o pé com o do civil. Mas o segue à distância. Essa distância nunca pode ser eliminada, pois a cultura do guerreiro jamais pode ser a da própria civilização. Todas as civilizações devem suas origens ao guerreiro; suas culturas nutrem os guerreiros que as defendem, e as diferenças entre elas farão os guerreiros de uma muito diferentes externamente dos da outra. Com efeito, um dos temas deste livro é que, nas aparências exteriores, existem três tradições guerreiras distintas. Em última análise, porém, há apenas uma cultura guerreira. Sua evolução e transformação ao longo do tempo e do espaço, dos começos do homem à sua chegada ao mundo contemporâneo, é a história da guerra.

Do livro História da Guerra, de John Keegan

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A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da
humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram,
eles dobram por ti. - John Donne


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